O diálogo em extinção

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Fico pensando por qual motivo as pessoas têm deixado de lado o diálogo, o debate, a discussão de ideias, a argumentação, a conversa. Tenho visto que as pessoas tem se relacionado com os outros através do "curtir" ou de míseros 140 caracteres. Isso basta? Creio que não.

Como é possível discutir ideias, argumentar, debater, compreender o que o outro diz, fazer-se compreender, dessa forma? Pra mim é impensável o relacionamento humano sem o olhar, sem o toque e sem a palavra. É na palavra que conseguimos infundir a nossa intenção. A ideia precisa das demoras do debate, do argumento, da discussão. Os relacionamentos também são assim. Como construir uma amizade sem o debate? Sem ser capaz de dizer ao outro como o vejo, o que me faz bem e o que me faz mal? Vivemos a era da amizade efêmera, uma tipo de amizade líquida, aproveitando a ideia de Bauman. Nada é feito para durar, tudo é efêmero, tudo é breve, inclusive os argumentos.

A questão é que na liquidez das amizades, realmente tudo parece mais fácil. Tenho tempo de pensar na resposta. Posso dizer qualquer coisa, pois não tenho o compromisso do olhar. Posso simplesmente deixar pra lá e não dizer mais nada, afinal, a conexão caiu. Porém, não nos enganemos, pois na liquidez do diálogo, a solidez das amizades desaparece e as amizades duradouras se acabam por vaidades bobas. Se não sou capaz de questinar meu amigo sobre suas atitudes, sobre supostas coisas que disse e que me machucaram, abraça-lo nas conquistas, chorar junto dele nas derrotas, não sou capaz de vivenciar um relacionamento realmente maduro e duradouro. O que me interessa, nesse caso, não é me relacionar com o outro, mas que o outro seja capaz de satisfazer as minhas necessidades. Se não há diálogo, não há argumento, não há confronto, não existe amizade sólida. Só existe espaço para o amor líquido, que rapidamente escore entre os dedos e se acaba.

Será que não é importante pensarmos nisso?

Felicidade é decisão

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012



Neste sábado eu e a Clarissa estávamos a caminho de Cidreira (praia do litoral norte gaúcho), para buscar a Mariana que havia passado a semana por lá  com seus avós. Vínhamos escutando música. Tocava um CD de músicas que me remetiam à minha infância, mais especificamente uma certa adoração que eu tinha por Kleiton e Kledir. Quando estava tocando a música Insônia, percebi uma frase que me chamou atenção de uma maneira diferente do que outras vezes que escutei essa música. Ela diz: a felicidade, apesar de tudo, é o que a gente inventou. 

Essa frase me fez pensar durante todo o final de semana. Eu ando meio quieto, pensativo, planejando um futuro ainda incerto, tentando me acertar com os desacertos que tenho com o tempo, conciliando meus desejos, minhas angústias, minha ansiedade em apressar meu processo de vida. 

Essa frase veio me fazer parar e pensar, afinal, o que é felicidade? O que busco como felicidade? Pensando em quê (que felicidade) o meu planejamento de vida vem sendo construído? 

A felicidade é exatamente o que a frase da música diz. Apesar de todos os desafios e dificuldades que a vida nos impõe, somos capazes de inventar a própria felicidade. A felicidade nada mais é do que a decisão de ser feliz. Como diz aquela outra música: felicidade não é um lugar onde se chega, mas a forma como se vai

É isso! A felicidade não é um objetivo futuro. Não está em um dia distante. Não serei feliz depois de conquistar isso ou aquilo. A felicidade está no processo de ir. Sou feliz no caminho, não no destino. 

É assim que pretendo viver daqui pra frente. Não quero ficar me maltratando, jogando um futuro feliz para sei lá quando. Quero viver minha felicidade a partir do próximo passo. Não quero fazer o que não é necessário e não me dá prazer, apenas para satisfazer algo que nem mesmo sei o porquê faço. Não sei bem se serei capaz de tudo isso, mas o que interessa não é saber se posso chegar lá e sim a forma da caminhada.

Um segredo entre nós

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012


Hoje assisti a um filme que me fez pensar muito. O título do filme é: Um segredo entre nós. Peguei na locadora sem nenhuma pretensão. Na verdade a única motivação que tive foi o fato de ter no elenco a Julia Roberts, um fato que, por si só, já faz a Clarissa assistir qualquer filme. Por isso o trouxe pra casa.
Feliz surpresa, pois esse filme trouxe muitas reflexões importantes. O filme basicamente trata da relação pai-filho-mãe. (Já aviso que vou contar o filme. Desculpe, mas é necessário para a reflexão) Um filho que ao longo de sua infância, aprendeu a odiar seu pai, por suas atitudes, e de amar a sua mãe, por ser sua proteção, seu conforto. Eis que a vida avança e (pelo que parece, pois não é mostrado no filme) o filho já adulto volta à cidade de seus pais para a formatura da sua mãe. No caminho, o carro em que estavam seu pai e sua mãe bate em um poste e sua mãe morre. A partir daquele momento que o filme começa a dizer o que deve ser dito. É o momento em que pai e filho são confrontados com seus monstros, suas lembranças. Aos poucos, vamos presenciando a escolha do perdão em detrimento do ódio. Vamos presenciando pai e filho e seu processo interno de cura, de aceitação. Processo de possuir-se, de tomar posse do que são, partindo no caminho do perdão. Em um dado momento, o filho pergunta ao pai: sempre fomos assim?, como que suplicando ao pai um fio de esperança e de amor em sua relação. Padre Fábio de Melo escreveu que o ódio é um sentimento cansativo, pois gera peso para a mente que o administra. Claramente se percebe esse cansaço naquele filho. Meu compadre escreveu em sua música: o ódio que se guarda vai matando só quem sente. De outra parte, diz o Padre Fábio: o perdão consiste numa reconciliação amorosa com os fatos e pessoas que nos machucaram. O motor que o move é o amor, e certamente foi no amor do filho pelo pai e do pai pelo filho que o perdão teve espaço para nascer, servindo como adubo para o amor florescer novamente nos seus corações.
Com esse filme aprendi que não há tempo para o amor e para o perdão. Sempre é tempo de abrirmos espaço para que nos visitem. Sempre é tempo para tomarmos a decisão do perdão, da reconciliação, do amor. O ódio pode até nos confortar por um tempo, pode se manifestar através da vingança, mas isso não faz restituir o que já foi perdido, não faz sarar as feridas, nem desaparecer as cicatrizes. Só há uma coisa capaz de devolver a paz que constroi a felicidade: o amor, que nesse caso é fruto de uma semente chamada perdão.

As estrelas e o Menino Jesus

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011


Hoje recebi um e-mail em que essa pessoa diziam que parou para olhar o céu, contemplar as estrelas e relacionou isso ao Nascimento de Cristo. Isso me fez pensar sobre a semelhança das estrelas e a vida de Cristo. Tá certo, parece estranho eu tentar fazer esse tipo de relação, mas acompanhem o meu raciocínio.

Quando olhamos para o céu, a noite, enxergamos estrelas brilhando. De vários tamanhos, de intensidades variadas. O que afinal vemos? Não sou um especialista em astronomia, mas sei que a estrela mais próxima de nós está de fato há uma distância que não sou capaz nem mesmo de mensurar. É muito longe. A luz que esta estrela irradia, viaja pelo universo durante centenas e até milhares de anos, para que possamos contemplá-la. Se isso é verdade, provavelmente algumas dessa estrelas que enxergamos no céu, nesse momento são estrelas já mortas, mas que, por essas coisas incríveis da natureza, continuam irradiando luz através de milhares de anos pelo universo.

Fiquei pensando que esta é uma figura que me remete à Deus, ao nascimento do menino Jesus, o qual celebramos sempre na noite de Natal. Não é exatamente isso que acontece? Jesus morreu na cruz por nós, há mais de dois mil anos, mas continua irradiando luz sobre a terra, continua presente no céu de nossos corações, continua enfeitando nossa vida de alegria. E mesmo antes de nascermos, Deus já gestava essa luz para que pudéssemos contemplá-la milhares de anos após sua morte, exatamente como acontece com as estrelas que precisaram morrer há milhares de anos para que pudéssemos contemplar hoje o seu brilho.

Quando estamos na escuridão, se olharmos bem, seremos capazes de enxergar a luz que irradia do coração de Deus, assim como somos capazes de perceber a estrela brilhando no céu escuro.

Na noite de Natal, se puderem, permitam-se contemplar o brilho das estrelas e lembrar que Jesus, assim como elas, continua irradiando sua luz no coração da humanidade.

Feliz Natal.

Para uma menina chamada Amor

terça-feira, 20 de dezembro de 2011



Menina de nossos sonhos
Se nome ainda não tens
De Amor te chamarei

Afinal, Amor é o que tens mais
Amor dos teus pais

Mas não esqueça do Amor que vem vindo
Reconheça: é o amor do teu Dindo

Pra minha pequena nova afilhada

As aparências enganam!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011


   Ontem aconteceu algo bem interessante comigo e que gostaria de partilhar com vocês. Eu estava no Foro Central, em Porto Alegre, mais especificamente no cartório da 4ª Vara Cível, tirando cópias de um processo. A menina que trabalha na máquina de xerox tinha os cabelos bem curtos, meio avermelhados, um piercing no nariz, se não me engano. Era aquele tipo de menina que poderíamos descrever como diferente do "normal", ou pelo menos diferente daquilo que eu tenho registrado como "normal". Só isso já desperta uma infinidade de pensamentos  e preconceitos que carregamos desde de nossa tenra infância, o que no meu caso não é diferente de ninguém. É a tal da "primeira impressão" que eu já tratei aqui no blog em outro momento. Aquela fração de segundo em que apenas baseado na "estampa" (termo usado no Rio Grande do Sul para determinar a figura, a imagem da pessoa), somos capazes de trazer à tona todo o tipo de preconceito que carregamos.
   Pois bem, no momento em que estava tirando o xerox, ouvimos uma música natalina que nos parecia cantada por um coral. A menina logo procurou saber de onde vinha, mas não deixou de fazer o seu trabalho. Peguei as minhas cópias e saí do cartório. Foi quando me deparei com o tal coral, cantando músicas natalinas pelos corredores do Foro. Era um grupo composto basicamente por pessoas bem idosas, mas felizes por estar trazendo aquela mensagem para todos que ali estavam. O coral era da AJURIS e, pelos comentários que colhi por ali, era capitaneado por um desembargador aposentado. Todos estavam radiantes de estar ali cantando. Cantaram algumas músicas e saíram em direção a outro andar do prédio. Foi então que me encaminhei para a saída. Quando olhei para a porta do cartório, estava lá, aquela menina - que me parecia "rebelde" - chorando copiosamente, emocionada com aquele gesto, que fazia pessoas idosas passar uma tarde cantando e tentando alegrar um pouco aquele ambiente sempre tão estressante.
   Saí de lá pensando nisso, no quanto somos capazes de rotular as pessoas sem nem mesmo conhecê-las, sem conhecer a forma com que reage ao mundo e seus estímulos. Fazemos esses juízos precários cotidianamente, sem piedade, com a dureza característica do instante, estanque, descontextualizado.
   As pessoas não podem ser carimbadas pela "primeira impressão", precisamos verdadeiramente nos livrar disso. O que importa, não é a cor do cabelo, um belo sorriso estampado no rosto (mesmo que não verdadeiro), uma roupa de grife. O que importa verdadeiramente é a abertura do coração; o quão aberto está para receber o novo, o diferente; o quão aberto está para receber um gesto, um sorriso, uma canção; o quão aberto esse coração está para dar e receber amor. Não importa o tamanho do cabelo, a quantidade de brincos que tem na orelha ou o tipo de roupa que veste, isso é perfumaria, isso é periférico. A essência - essa sim fundamental - é a forma como me entrego para o outro, a forma como sou capaz (como fez a menina da história) de me emocionar com um simples gesto de carinho.
   Deus nascerá nesse Natal nos corações abertos ao seu chamado. Ele bate à porta de todos, mas Ele respeita, Ele espera, Ele perdoa. Ele não impõe, Ele não sufoca. Viver o Natal não é nada além de estar de coração aberto para que Jesus possa nascer no coração de cada um e que este nascimento seja também fonte de amor na vida de cada um que o recebe e na vida daqueles que os cercam. Esse é verdadeiro sentido do Natal. Esse é o verdadeiro sentido do amor.

Meu (longo) cartão (pessoal) de Natal

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011


Amigos, mais um ano que vai chegando ao seu fim. A proximidade do Natal sempre me põe a pensar sobre muita coisa. O aniversário de Cristo é pra mim como um estopim, que me faz reagir a todos os estímulos, sensações, sentimentos que fizeram parte do meu cotidiano, durante todo o ano que se passou. Costumo parar para pensar sobre as coisas que me afetaram durante o ano, tentar entendê-las, organizá-las em relação às minhas crenças e a forma pela qual eu encaro a minha vida. Creio sinceramente que esta é uma forma bastante eficaz de me colocar diante da vida e tentar colher dela tudo aquilo que talvez ainda esteja esparramado, deixado de lado, mas que se percebido com maior atenção, mostra-se fundamental no meu processo humano. Quem sabe isso não possa ser uma proposta interessante para esse final de ano? Quem sabe isso também possa ser importante na tua vida? Não sei, tente e veja no que vai dar.

Quem acompanha o meu blog talvez entenda um pouco essa minha inquietação em enteder as coisas que sinto. Esse ano foram muitas coisas vividas e tantos outros ensinamentos percebidos. Lembro que em um dado momento eu falava sobre sucesso. O que realmente significa sucesso. Hoje, ao refletir sobre o que passou no ano, inevitavelmente preciso me fazer essa pergunta. Fui um cara de sucesso? Como dizia naquele momento, creio que sim, pois o sucesso não está relacionado com o que tenho, com o quanto de dinheiro fui capaz de acumular, com a quantidade de tapinhas nas custas eu fui presenteado. O meu sucesso é a quantidade do que sou e não do que tenho. É a alegria no rosto da minha filha. É o olhar da minha esposa. É o abraço de meus amigos. O meu sucesso está intrinsecamente relacionado com o amor que sou capaz de oferecer e receber.

Esse ano aprendi muitas coisas com a minha filha. Aprendi com ela a enxergar além do feio e do bonito, aprendi com ela a enxergar a essência, a não ter medo do que me parece diferente, a ultrapassar a barreira da “pirmeira impressão”, pois, diferente do que sempre dizemos, creio que a primeira impressão não é a que fica, mas é a que desvela nossos preconceitos, é a que traz a tona tudo aquilo que aprendemos a diagnosticar entre bonito e feio. Por isso, creio que preciso fazer força para ultrapassar a primeira impressão e dispensar o juízo do feio e do belo para que, de fato, entenda a beleza da essência e da humanidade dos que me cercam. Aprendi a amar sem prestar atenção no que é periférico.

Esse ano conheci mais de perto pessoas diferentes. Diferentes de mim, de “mundos” diferentes dos quais eu costumava viver. Pessoas que compreendem a vida, a fé, o amor, a amizade, Deus, de outra forma que não necessariamente a mesma compreensão que tenho. Descobri que isso me fez aprender mais sobre mim, me fez crescer no entendimento de quem sou, de como sou e como percebo o mundo a minha volta. Através deles, fui capaz de compreender melhor minhas posições, solidificar minhas crenças, crescer na minha fé, me aproximar de Deus. Aprendi que há um verbo que tem muitos nomes, mas um só significado. O verbo AMAR. Uns o chamam de Deus, outros preferem nomea-lo de outras formas. Porém, o que importa de verdade é a vontade de viver esse verbo e de disseminar seu ensinamento para toda a humanidade. Agradeço a Deus por me mostrar isso.

Aprendi que estou ao lado de uma mulher de garra, de coragem e de capacidade, que talvez ainda não tenha plena consciência do que é capaz, mas que tenho confiança que um dia olhará para trás e verá o tamanho da importância que tem na minha vida e na vida de tanta gente que a cerca (e ela costuma andar sempre cercada de muitos), que a ama e que a admira.

Aprendi que ser pai é um processo diferente de qualquer outro, pois o seu desenrolar não depende apenas de mim e que o processo se desenvolve através de uma lente que não é a minha, que o mundo é percebido não pelos meus olhos e ouvidos e que isso tudo é a experiência mais bonita que um ser humano pode viver: a de acompanhar o desabrochar da flor, conhecendo cada passo, mas sendo surpreendido com a beleza do fruto, que, mesmo que diferente do imaginado, é ainda mais belo do que o desejado.

Que neste Natal estejamos prontos para deixar Jesus nascer em nossos corações.