Os Croods e a Páscoa

27 março 2013



    Parece estranho o título do post, eu entendo, mas de fato foi essa a reflexão que fiz quando assisti ontem o filme Os Croods. É um filme infantil - como tantos que tenho visto com minha filha nos últimos anos - que traz tanta coisa interessante, que vale uma reflexão aqui no blog. Aparentemente um filme de aventura e comédia infantil. Uma família pré-histórica que nos dá ensinamentos preciosos ao longo do filme.
    Inicialmente identifica-se a filha adolescente do casal como a personagem principal do filme, mas aos poucos vê-se que, na verdade, o grande personagem é o pai. Uma família que vive no escuro de uma caverna, sobrevivendo através do medo, sem esperança ou mesmo qualquer perspectiva de propósito. Isso até a filha adolescente, fascinada pela luz e pela inquietação pela inexistência de explicação para o propósito da vida, resolver desrespeitar as regras que até ali os mantinham vivos. Conhece um humano um pouco diferente, não tão forte fisicamente, mas que conhece algo até ali desconhecido pra ela: o fogo. Um viajante solitário que viaja fugindo do fim do mundo, em busca de algo que ele chama de "o amanhã". De fato a sua profecia se cumpre e o mundo que eles conhecem vai desaparecendo, sua caverna é destruída e um mundo todo novo se apresenta a esta família, conduzida por esse jovem rapaz, pelo desconhecido, em busca da sobrevivência.
    O pai continua procurando uma nova caverna para que possa manter sua família na escuridão e no medo, mas viva. O grande acontecimento do filme se dá aparentemente na periferia do filme, mas pra mim é o ponto central da história: a transformação do pai.
   Num dado momento, o pai compreende a necessidade de propósito que sua filha tanto buscou e decide se entregar a essa busca. É a partir desse momento que encontro a relação com a páscoa.
    O pai, num momento de grande turbulência, tem a chance de decidir buscar uma nova caverna, que poderia garantir a sobrevivência de sua família na escuridão e no medo, mas ousa querer mais que isso para os que ama. Ele quer que eles sejam felizes. Quer que eles "vejam o amanhã". Quer que eles sejam capazes de viver a esperança de um mundo melhor. Porém, para isso é necessário um sacrifício e ele então entrega a sua vida para que sua família, seus amigos e até os que aparentemente eram seus inimigos fossem salvos, fossem capazes de contemplar a face do "amanhã". Se alegra com a confirmação de que todos conseguiram se salvar e, mesmo quase soterrado numa caverna, se alegra ao imaginar cada um deles sendo feliz. Após um tempo de muita tristeza daqueles que ele salvou, imaginando que ele estava morto, ele ressurge, vivo e pronto para viver ao lado deles uma vida nova, não mais na escuridão e no medo, mas na alegria de viver a esperança e o amor.
    Isso é Páscoa, não é mesmo?
 
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Renúncia, exercício do amor.

27 fevereiro 2013


    Estive pensando sobre a renúncia do Papa Bento XVI. Tentando compreender o significado disso tudo. A conclusão que cheguei é que este sem sombra de dúvidas é o grande legado que o Papa nos deixa. Essa é a sua catequese: a renúncia. Muito se falava que este era o Papa da intelectualidade, da teoria, mas é na prática que ele deixa o seu maior ensinamento. A marca de seu pontificado sem dúvida não será o que escreveu, mas seu testemunho de vida.
    Renúncia é uma palavra tão pouco invocada no discurso contemporâneo. Talvez esse seja o momento perfeito para chamá-la de volta ao convívio cotidiano. Compreender o seu sentido e a sua repercussão na vida de cada um e toda a humanidade.
    Falamos muito no amor, que amamos isso ou aquilo. Infelizmente o amor anda meio banal, no sentido mais insignificante da palavra. Provavelmente a banalização do sentido do amor se dá porque não compreendemos o amor como renúncia. Sim, amor é renúncia. Nos dias de hoje as pessoas não estão dispostas a dar o passo na direção da renúncia. A vaidade e um certo narcisismo endêmico, o qual somos levados a acreditar ser o caminho da felicidade, nos distanciam passo a passo do exercício da renúncia e, consequentemente, do exercício do amor.
    É esse talvez o motivo de cada vez mais as pessoas preferirem relacionar-se com seus animais de estimação ao invés de construirem uma família, por exemplo. Prefere-se um cachoro ou um gato ao invés de um filho. As pessoas não estão dispostas a renunciar seus pequenos prazeres ou seus planos de realizações pessoais em favor de outra pessoa. Não estamos dispostos a renunciar algumas noites de sono, a viagem preparada para as férias, o carro novo ou a possibilidade de ser "livre" para fazer o que bem entender. A mentalidade do homem do século XXI está na firme direção da satisfação dos desejos pessoais. Ou seja, sou feliz quanto tenho MEUS desejos satisfeitos. Ocorre que esta mentalidade não dialoga em nenhum momento com a lógica do amor. Já escrevi uma vez sobre isso, quando refleti sobre o filme Na Natureza Selvagem. Vai o link desse texto: http://blogorreiadesvairada.blogspot.com.br/2010/01/felicidade-so-e-verdadeira-quando.html.
    O amor necessariamente impõe o sentido inverso. A lógica do amor está na direção do outro. Renuncio o meu em favor do outro. Renuncio o meu prazer em favor do prazer do outro. Renuncio o meu sono em favor do sono do filho. Renuncio meus projetos em favor do outro. Parece radical? Pois eu digo, é de fato radical. Amar é extremamente radical. Amar é o exercício diário da renúncia. Amar é entregar-se ao outro sem reservas, sem esperar o troco. Me dou por completo sem reivindicar o retorno.
    É necessário que a humanidade compreenda esse ensinamento do Papa. É necessário que a humanidade caminhe na direção da renúncia, na direção do amor.


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Da série Reflexões no Cinema: Detona Ralph

17 janeiro 2013


    Como vocês sabem, sou pai de uma menininha de 5 anos. Por esse motivo, sou levado a assistir os filmes de animação em cartaz nos cinemas. Confesso que eu gosto. Ultimamente, num gesto de solidariedade aos pais dos pequenos, que são obrigados a assistir esse tipo de filme, os estúdios têm incluído cenas próprias para os adultos, piadinhas que só nós entendemos e mensagens realmente importantes, tanto para os pequenos como para nós adultos.
    Assim foi no último filme que assisti no cinema (duas vezes), o filme Detona Ralph. Um filme bem interessante para quem foi adolescente na década de 80/90 e que frequentava o fliperama, mas isso é um detalhe que não nos interessa aqui. Nesse espaço eu quero falar sobre alguns temas que ficaram bem claros pra mim como mensagem importante desse filme, tanto para os pequenos, quanto pra nós adultos.
    A primeira delas, que não necessariamente é a mais importante, trata da máxima "quem vê cara não vê coração". Ou seja, como somos levados a fazer julgamentos antecipados das pessoas que nos rodeiam a partir da sua aparência, do seu estilo de vida, da sua posição profissional (ou da sua não-posição profissional). Não raras vezes a "primeira impressão é a que fica" e fica como uma imensa barreira a impedir qualquer tipo de aproximação, ou se permitida a aproximação, esta se dá balizada por conceitos criados no momento da "primeira vista". Esse tipo de atitude por vezes nos distancia de alguém realmente interessante.
    O filme também suscita um enfrentamento pessoal parecido com o exposto no parágrafo anterior. Vejam que se é verdade que fazemos julgamentos apressados dos outros o tempo inteiro, fazemos também julgamentos severos e superficiais de nós mesmos. Não são poucas as vezes que nos pegamos menosprezando aquilo que somos e aquilo que temos, baseados em algo que admiramos no outro ou na vida do outro. Esquecemos de olhar pra dentro de nós, de investigar o mais profundo de nós mesmos. Esquecemos de apreciar nossas vidas e nossas conquistas cotidianas. Esquecemos de olhar para o que fazemos e para o que nos tornamos, compreendendo a importância que temos na engrenagem que move as vidas de todos nós e extraindo dali a beleza daquilo que normalmente entendemos banal. Por vezes fazemos as nossas tarefas diárias como uma pena, uma obrigação que pesa, mas esquecemos que podemos realiza-las compreendendo-as como missão. A verdade é que sempre é mais fácil identificar os nossos defeitos, as nossas tristezas, os nossos fracassos, do que encontrar a beleza cotidiana que nos visita e que insistimos em bater a porta e deixa-la de fora.
    Por fim, e não menos importante, o filme demonstra que o homem nasceu para relacionar-se com os outros homens. A humanidade só é plena no convívio e a felicidade só é possível no amor. No amor próprio, mas, fundamentalmente, no amor que somos capazes de entregar ao outro. Não importa o que eu consiga conquistar, aonde eu consiga chegar, lá não haverá felicidade se não for compartilhada. É no amor que sou capaz de dar que habita a felicidade. A felicidade não está no amor que recebo, mas no amor que sou capaz de entregar ao outro. É nesse amor, é nesse momento, que tudo que é excesso, que é supérfluo, se dissipa, perde o valor e só o que é essência tem lugar. Esse é o lugar da felicidade.
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Reflexões sobre a música católica

27 dezembro 2012



Tenho pensado muito sobre a nossa música católica nos últimos tempos. Na verdade a reflexão é sobre o comportamento que nós, crentes, tomamos frente às pessoas que nos cercam. Na verdade há algo que me incomoda muito. Algo que pra mim não “fecha”, não faz sentido. Aqueles que frequentam os grupos da Igreja vão entender o que estou falando.
Nós que fazemos parte da Igreja Católica temos uma mania de nos colocar a parte do “resto” do mundo. Fala-se do que é de Deus e o que é do Mundo; as coisas de Deus e as coisas do Mundo. Afinal, que tipo de cristãos somos quando nos apartamos do mundo? Que motivo há para sermos de Deus se nos colocamos fora do mundo? Cristo veio ao mundo, viveu e morreu na cruz para salvar o mundo, não para salvar “apenas” os crentes. Cristo nos envia ao mundo para pregar a boa nova, para mostrar ao mundo que é possível viver um mundo de amor, de perdão. O mundo faz parte das “coisas de Deus”!
E o que afinal isso tem a ver com a música católica? Simples, pois assim nós também nos apartamos do mundo musical para viver o nosso próprio mundo musical. Acontece que quando nos apartamos do mundo e damos as costas para o que acontece no cenário musical, nós corremos o sério risco de manter o nosso mundo limitado, cheio de vícios, que só faz sentido para aqueles que o conhecem, que não agrega, não traz pra perto novas pessoas, não evangeliza.
 
A música indiscutivelmente serve como um primeiro contato com aquele que chega num território desconhecido. É a forma mais eficaz de ambientar qualquer cenário. Por isso, a importância da música católica ter a necessidade de dialogar com a música popular, música clássica, etc. Afinal, através da música queremos trazer às pessoas a boa nova. Queremos apresentar a nossa salvação através de nossa música. É claro que fazemos música católica para os católicos, mas creio que devemos fazer música católica também para aqueles que ainda não conhecem Cristo, para aqueles que estão sedentos dele. Porém, precisamos nos aproximar dessas pessoas, precisamos achar algo que gere nelas interesse em nos escutar.
O padre Fábio de Melo faz isso muito bem. Faz isso através da linguagem poética, mas também buscando algo que crie afinidade com quem o escuta. Não é a toa que em todo o CD do padre Fábio há pelo menos uma canção “não católica”. Não é sem motivo (penso eu) que ele faz isso. Creio que é um movimento inteligentíssimo de ir ao encontro daquele que queremos alcançar. Ele apresenta algo para que a pessoa se sinta confortável e depois diz o que quer dizer. Além disso, ainda consegue fazer com que aqueles que já consomem música católica façam um movimento diferente e apreciem a música que não é católica com uma visão menos apressada, compreendendo que dali também podemos encontrar coisas bonitas, palavras importantes, de Deus. Quero que as pessoas ouçam o que tenho a dizer, mas pra isso é necessário que tenham interesse em me ouvir. Porém, quanto mais eu delimito o “meu” mundo, mais eu me afasto daqueles que não fazem parte dele.
Eu não quero dividir os mundos. Quero ser cristão e viver no mundo como cristão, dialogar com aqueles que não professam a minha fé, sem precisar “abrir e fechar portais” que me fazem agir de maneira diferente, a medida em que estou neste ou naquele “mundo”. Quero que as pessoas tenham interesse em ouvir a minha música, em saber o que tenho a dizer, conhecer a palavra de Cristo e o amor dele por TODOS nós.
E vocês? O que pensam disso?
 
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Natal - Esperança e Sacrifício

13 dezembro 2012


Esse ano eu quero falar um pouco sobre o que celebramos no dia vinte e cinco de dezembro. Ao contrário do que alguns ainda pensam esse não é um dia de trocar presentes, se empanturrar de comida e beber até cair. Nada disso!
O dia vinte e cinco de dezembro é o dia em que celebramos o nascimento daquele se entregou ao mundo por nós. O dia do nascimento do Deus menino que escolheu estar entre nós para nos mostrar que é possível viver uma vida em que o humano e o divino se completam.
Se eu pudesse resumir o natal em duas palavras, eu diria que o Natal é esperança e sacrifício.
Esperança, porque Deus vem a nós como irmão para mostrar que acredita que é possível realizar seu plano de amor na humanidade. Esperança, porque Deus deposita em nós a expectativa de que nós sejamos protagonistas desse mundo de amor. Esperança, porque nós reconhecemos na figura de Cristo a possibilidade de realizar o divino naqueles que são humanos.
Sacrifício, porque Deus está disposto a entregar-se por inteiro por esse projeto, que somos nós. Sacrifício salvífico que nos conduz à salvação. Sacrifício que nos ensina a oferecer amor ao outro; oferecer o que temos de melhor pela humanidade. Esse não é um sacrifício que faz mal, que cansa, que aniquila o que se sacrifica, pois aquele que se dá, aquele que se entrega, faz isso motivado pelo amor e entregar amor ao outro nunca gera mal, nunca gera cansaço, nunca gera perda.
Há uma linda música da Ziza que sempre me emociona e que traduz bem o que quero dizer. Ela diz assim: “não existe amor maior / que a coragem de dizer / que um dia / se preciso for / dou minha vida por você”. Essa é a expressão maior do amor, que ao mesmo tempo é esperança e sacrifício e que se apresenta a nós a partir do nascimento do menino Jesus, o único e fundamental motivo de celebrarmos o Natal.
Como diz a música do Grecco, rogo a Deus que eu seja capaz de abrir meu coração e minha vida, para neste vinte e cinco de dezembro Deus “nascer e ser Natal” em mim e que eu seja capaz de viver a esperança e o sacrifício da realização do projeto de amor de Deus para cada um de nós! Que a cada dia eu seja mais capaz de entender e viver a frase profética da Mariana que diz: “pai, eu amo todo mundo que eu conheço e todo mundo que eu não conheço também!”
Feliz Natal!

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19 anos de AMOR

12 novembro 2012


    Para alguns um absurdo; para outros uma façanha; para nós é apenas amor.
    Lá se vão 19 anos daquele 12/11/1993. A história da data é um pouco confusa. Talvez se o blog fosse da Clarissa, vocês saberiam da história em detalhes, mas vou dar uma resumida segundo a minha visão (versão) da situação.
    Na verdade o dia de celebrar o início do nosso namoro talvez devesse ser outro, mas é que um dos enamorados era a Clarissa e quem a conhece bem entende que para ela era necessário ter certeza absoluta que estávamos de fato namorando. Claro que toda essa dúvida teve um empurrãozinho do meu irmaão (Dudu) e do nosso amigo Xingu, mas, na verdade, essa história só potencializou ainda mais esse traço que é característico da Clarissa. Pois bem, foi naquela noite, na casa da Nina, que a Clarissa, depois de um volume razoável de àlcool no sangue, criou coragem para me fazer a pergunta fatal: "o que é que tu és meu?". Sim, foi dessa forma que definiu-se o dia 12 de novembro como o início oficial do nosso namoro.
    De lá pra cá vivemos muitas coisas juntos. Na verdade eu vivi ao lado da Clarissa mais tempo do que vivi sem ela. Vivi ao lado da Clarissa os momentos mais intensos que a minha memória é capaz de recordar. A morte da minha Vó, que era muito próxima a mim, a doença e a morte da minha mãe, o nosso casamento, o nascimento da Mariana. Tristeza profunda, alegria sublime e um tanto de vida cotidiana vivida com alegria.
    Creio que a receita do amor no tempo é essa: viver a alegria cotidiana do amor. Não é nos grandes sofrimentos e nem nas maiores alegrias que o amor se constroi, mas na vida cotidiana vivida em conjunto. É esse amor cotidiano que está descrito em na primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (I Cor 13): O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
    Algumas pessoas ainda compreendem o amor romântico sob a aura de encantamento das novelas ou dos contos de fadas e acreditam que amor se prova com sinais grandiosos. Assim, também alguns esperam uma manifestação do amor de Deus. Eu tenho pra mim que a realidade cotidiana da vida faz do pequeno gesto diário, aquele que até por vezes passa despercebido, a verdadeira prova do amor. Os exemplos das novelas e dos contos de fadas talvez tenham mais a ver com a paixão do que com o amor. O amor é alimento que se cozinha em fogo baixo, sem pressa, com cuidado. O amor é feito de demoras, como gosta de dizer o Pe Fabio de Melo.
    Assim é construído o nosso amor, assim sustentamos a nossa união. Nós, um pro outro, em direção a Deus. Como diz aquela música que a Clarissa adora: Amar é conduzir o outro ao céu / (...) Em gestos, criar o bem no outro / (...) Amar é cuidar, amar é doar, amar é perder para ganhar / Eu vou trazer o céu até você.
    Clarissa, rogo a Deus para que eu seja capaz de ser instrumento desse amor cotidiano nas nossas vidas, conduzindo o nosso amor, junto contigo, até o céu.
    Que Deus continue abençoando a nossa família.
    TE AMO!

O gato bebe leite, o rato come queijo...

06 novembro 2012



    Esse final de semana assisti o filme O Palhaço com a minha esposa. Um filme que num primeiro momento até me passou batido, sem repercutir muito. Atuações maravilhosas, história interessante, mas não tinha gerado em mim qualquer desconforto. Porém, dias depois que me dei conta da repercussão do filme em mim. A reflexão foi e está sendo feita por mim, só não havia me dado conta que fazia isso provocado pelo filme. Eu diria que este é, pra mim, um "filme de retrogosto".
    Pois bem, voltando à frase do título, a reflexão que se faz é sobre quem sou, qual a minha vocação, qual a minha função no mundo. Podemos também, ao falar de vocação, falar de talento. Aí lembro bem da música do Grecco - Talentos - em que ele diz: De que adianta ser a ave voadora / Ter o canto do canário e para sempre me calar / Então seria como ser a luz da vela / iluminando uma capela e uma sombra lhe abafar / Ser sal da terra e o sabor que em si encerra / Se perder pelo espaço e pelo espaço não teria serventia.
    Ou seja, se eu não souber identificar o meu talento e, além disso, se eu não trabalhar esse talento e não vivê-lo, de nenhuma serventia será e, se assim não for, talvez eu não esteja cumprindo a minha função no mundo.
    Acontece que não é fácil identificar o talento, porém, pior ainda, é de fato conseguir viver o talento. As "necessidades" do mundo do consumismo (e não falo somente no consumo de coisas, de comprar coisas) tem nos imposto formas de vida que talvez não sejam aquelas que favorecem a vivência do nosso talento. O mundo do consumismo me diz que, pra ser feliz, tenho que ser como o fulano, me vestir como o outro cara. Pra ter sucesso tenho que seguir os passos de tal personalidade. Nesse mundo não há espaço pra viver o talento, pra assumir a sua vocação.
    A Mariana, por exemplo, quando perguntada o que quer ser quando crescer, responde sem titubear: quero ser uma cantora famosa. A gente se diverte, acha bonitinho, mas ficam muitas perguntas: será que ela realmente pensa isso ou é coisa de criança que em seguida até esquece? será que as crianças de fato conseguem identificar melhor o seu talento, já que não tem a dimensão do consumismo que freia o adulto? ou será que simplesmente ela diz isso já contaminada pelo mundo consumista?
    A verdade é que infelizmente essa forma um tanto pasteurizada de vida que vivemos deforma cada vez mais os talentos, nos empobrecendo como sociedade e como seres humanos.
    O que vocês pensam disso?